Quem ficou com os minutos que você perdeu ontem?
Na semana passada, perguntei o que você faria com um minuto a mais no seu dia.
Hoje a pergunta é mais desconfortável: quem ficou com os minutos que você perdeu ontem?
Porque eles não evaporaram. Alguém os capturou. E lucrou com eles.
Os homens cinzentos chegaram antes
A literatura previu isso há mais de 50 anos.
Em Momo (Michael Ende, 1973), homens cinzentos chegam à cidade vendendo uma ideia sedutora: poupe seu tempo hoje e receba-o com juros no futuro.
As pessoas aceitam, ficam cada vez mais apressadas e nunca recebem os juros.
Os homens cinzentos fumam os minutos roubados.
Troque os homens cinzentos por notificações no celular, redes sociais ou agentes de IA, e o romance infantil vira relatório de mercado.
Quase um dia inteiro por semana
Os números são de assustar.
O relatório Digital 2026 (DataReportal, com dados da GWI) mostra que o usuário típico de internet consome 33 horas e meia de mídia online por semana.
Isso equivale a 29% das horas em que estamos acordados.
Só em redes sociais e vídeo, a média passa de duas horas e meia por dia.
Entre mulheres de 16 a 24 anos, o consumo semanal de redes e vídeo chega a 25 horas e 45 minutos.
Quase um dia inteiro por semana. Toda semana.
Quem está controlando o seu tempo?
Nas palestras que faço, quando pergunto quem sente que o celular manda no próprio dia, as mãos sobem antes de eu terminar a frase.
Todo mundo sabe.
Quase ninguém reage.
Jonathan Haidt, professor da NYU, resumiu o mecanismo em um discurso de formatura que virou manifesto:
“Aquilo a que você presta atenção molda o que você valoriza. E o que você valoriza molda quem você se torna.”
Sobre as plataformas, ele foi direto:
“Elas estão tentando tomar isso de você.”
Quando o tempo vira matéria-prima
Aqui entra a reflexão que interessa a quem constrói negócios.
A economia da atenção tratou o tempo do cliente como matéria-prima gratuita.
Extraiu sem pagar.
Funcionou por vinte anos.
Mas todo recurso extraído sem reposição um dia entra em escassez, e escassez muda preço.
O que acontece quando o consumidor percebe que seu tempo era o produto?
A próxima vantagem competitiva pode ser o tempo
A tendência é que a próxima vantagem competitiva seja a reputação temporal.
Marcas que devolvem minutos serão preferidas às que os capturam.
Aplicativos que resolvem em três toques vão valer mais que aplicativos que prendem por três minutos.
E o “custo em tempo” de cada serviço tende a ficar tão relevante quanto o custo em reais.
A disputa já começou
Como eu sempre digo: o futuro só começa amanhã no calendário.
Na prática, a disputa pela sua atenção está decidindo agora quem você será daqui a dez anos.
É sobre isso que refletimos ao provocar o Pensamento Inovador com empresas e executivos.
Este é o segundo artigo da série sobre o tempo e, na semana que vem, tem mais.
Uma pergunta para fechar
Antes de fechar, reflita:
Qual aplicativo você abriria menos se visse, no fim do dia, a conta de minutos que ele levou?
Conta aqui nos comentários.
Fontes
- DataReportal, Digital 2026 Global Overview Report (out/2025, dados GWI): DataReportal
- Jonathan Haidt, “Treasure Your Attention”, After Babel (20/05/2026): After Babel
- Momo, romance de Michael Ende, 1973.
