Há pouco tempo, um conselhelheiro de administração me chamou para dar uma opinião sobre inteligência artificial, tema do nosso último artigo. A pergunta deles era sobre tecnologia. A resposta que levei era sobre tempo.
Existe um descompasso perigoso sobre tempo acontecendo agora, e quase ninguém está olhando.
De um lado, o mundo anda em velocidade exponencial. De outro, as empresas andam em velocidade de segurança e conservadorismo na tomada de decisão.
Quando esses dois relógios marcam horas diferentes por tempo demais, acontece o que Ernest Hemingway descreveu: primeiro devagar, depois de repente.
Steve Dennis, especialista em varejo, usou exatamente essa frase para explicar a queda de gigantes como Saks e Neiman Marcus. Não foi um raio em céu azul. Foi uma soma de decisões adiadas ao longo de vinte anos que, um dia, cobraram a conta toda de uma vez. “Gradually, then suddenly.”
O tempo interno de uma organização é o ativo que ninguém coloca no balanço. E é o que mais destrói valor quando mal administrado.
Silvio Meira, um dos grandes pensadores do momento, jogou luz sobre a face mais difícil desse tempo. A inteligência artificial, diz ele, não é uma ferramenta que otimiza tarefas. É uma tecnologia de propósito geral que obriga a reorganizar o trabalho inteiro.
Meira projeta uma transição de 10 a 20 anos, com o recurso escasso deixando de ser produção e passando a ser atenção e discernimento. O trabalho que sobra é decidir o que delegar à máquina, com que critério, e validar o resultado.
Traduzindo para a mesa de decisão: a empresa que trata IA como projeto de eficiência, para fazer o mesmo mais barato, está usando o relógio errado. A que trata IA como redesenho de como o trabalho existe está no relógio certo. As duas parecem iguais hoje. Daqui a cinco anos, uma delas não estará mais aqui.
O contraponto honesto, e ele é forte: nem todo mundo concorda com a urgência. Scott Galloway argumenta que o “apocalipse dos empregos por IA” é mais narrativa de marketing do que dado.
É exatamente esse o trabalho que faço: ajudar empresas a ler sinais cedo, separar o hype do estrutural e decidir com antecedência. Foi o que levei àquele conselheiro, e é o que separa quem surfa de quem é surfado.
Porque, como eu sempre digo, o futuro só começa amanhã no calendário. Na prática, a transição que já está em curso dentro da sua empresa. Com ou sem a sua decisão.
Fica a pergunta desta semana: sua empresa está no relógio da tecnologia ou no relógio do comitê?
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Fontes
Silvio Meira, “O que você faz de melhor é o que terá de desaprender primeiro” (24/08/2026): https://silvio.meira.com/o-que-voce-faz-de-melhor-e-o-que-tera-de-desaprender-primeiro/
Steve Dennis, “Gradually, Then Suddenly”, Pardon the Disruption (08/01/2026): https://pardonthedisruption.substack.com/p/gradually-then-suddenly
Scott Galloway, “Apocalypse No” (08/05/2026): https://medium.com/@profgalloway/apocalypse-no-753b5bf0d330
Este texto faz parte de uma série de artigos chamada “Tempo”. Você já viu o primeiro? Acompanhe em nosso blog: https://arturmotta.com.br/ideias-em-acao/
