À medida que algoritmos eliminam o esforço de decidir, pesquisar por conta própria, hesitar, errar e descobrir o inesperado pode deixar de ser fricção para se transformar em experiência.
Durante muito tempo, luxo significou acesso ao que poucos podiam ter. Depois passou também a significar exclusividade, personalização e tempo. Em um mundo no qual sistemas inteligentes conseguem eliminar cada vez mais fricção da vida, talvez algumas pessoas comecem a valorizar justamente a possibilidade de não otimizar tudo, de escolher lentamente, de pesquisar por conta própria, errar, mudar de ideia e descobrir algo que não estava previsto no perfil.
O paradoxo é que poderemos usar inteligência artificial para retirar esforço de milhares de decisões e, ao mesmo tempo, criar espaços nos quais pagaremos justamente para recuperar esse esforço.
Em março de 2026, uma reportagem escrita na Forbes por Kian Bakhtiari propôs a tese de que desconectar-se começa a virar produto e virou símbolo de status. Ao lê-la, a ideia que me veio e se, talvez, em algum momento, escolher também vire experiência. O fato é que não existe uma resposta única, e esse é o ponto.
Futuros são construídos pela interação entre tecnologia, economia, cultura, comportamento, regulação e escolhas humanas. Provavelmente não delegaremos tudo. Também dificilmente voltaremos a decidir tudo sozinhos. O mais interessante está no território entre esses dois extremos.
Em um cenário assim, escolher pode adquirir um valor diferente
Isso não porque as pessoas deixarão de usar inteligência artificial, mas porque, quando a conveniência estiver disponível o tempo todo, abrir mão dela em determinados momentos poderá se tornar parte da experiência, algo libertador até.
Pesquisar um restaurante sem aceitar a primeira recomendação. Entrar em uma livraria sem saber exatamente o que procurar. Planejar uma viagem sem transformar cada etapa em uma sequência otimizada. Comparar alternativas, conversar com alguém, mudar de ideia. Até mesmo errar.
São coisas banais hoje. Mas talvez justamente por isso seja interessante observá-las. Quando uma tecnologia torna algo escasso, aquilo que antes parecia ineficiência pode ganhar outro significado. O tempo gasto escolhendo pode passar a ser percebido não como desperdício, mas como autonomia, descoberta ou prazer.
Isso também abre uma questão para as empresas. Se durante anos a inovação buscou eliminar etapas da jornada do consumidor, talvez surja espaço para experiências que façam o contrário: não dificultar a escolha, mas devolver valor a ela.
Alguns negócios poderão competir pela capacidade de antecipar desejos e decidir quase tudo pelo cliente. Outros talvez se diferenciem justamente por preservar descoberta, curadoria humana, experimentação e escolhas menos previsíveis.
O luxo, nesse caso, não estaria em rejeitar a inteligência artificial nem em voltar a um mundo menos tecnológico. Estaria em poder escolher quando queremos conveniência, e quando queremos o caminho.
Talvez seja esse o paradoxo: quanto melhor as máquinas ficarem em escolher por nós, mais valor poderá existir nos momentos em que fizermos questão de escolher por conta própria.
Em quais situações a conveniência vencerá? Em quais a confiança será mais importante? Quais decisões aceitaremos terceirizar completamente? Em quais exigiremos supervisão? Que escolhas passarão a ser consideradas pessoais demais para uma máquina? E quais hoje parecem profundamente humanas, mas daqui a alguns anos consideraremos absurdo fazer sem ajuda de uma inteligência?
Não sabemos. Mas já existem sinais suficientes para que empresas e lideranças comecem a fazer essas perguntas. Afinal, cada setor encontrará sua própria dinâmica.
Na saúde, confiança e responsabilidade podem definir essa fronteira. No varejo, conveniência e preço. Nos serviços financeiros, risco. No turismo, descoberta e experiência. Na educação, autoria. No entretenimento, surpresa. E cada mudança nessa fronteira poderá criar novos modelos de negócio, novos intermediários e também novas oportunidades para quem entender cedo o que está mudando.
Talvez, portanto, a pergunta mais interessante sobre inteligência artificial não seja: até onde ela será capaz de decidir por nós? A capacidade tecnológica continuará avançando e essa resposta mudará rapidamente.
Existe outra pergunta sobre a qual ainda temos algum poder: Até onde queremos deixar que ela decida? Isso porque entre todos os futuros possíveis que a inteligência artificial começa a abrir, existe um que dependerá menos da tecnologia do que de nós mesmos: o futuro das escolhas que ainda faremos questão de chamar de nossas.
Fontes: Silvio Meira (silvio.meira.com) · PHD × WARC via Advanced Television · McKinsey, State of the Consumer 2026 · Forbes (Kian Bakhtiari) · CNBC
